Artistas ou amadoras? Mulheres no mundo do piano paulistano no início da primeira república

Fernando Pereira Binder 

Em setembro de 1913 Guiomar Novaes estreou-se no Theatro Municipal de São Paulo, também era sua primeira apresentação na cidade após conquistar o primeiro prêmio de piano do Conservatório de Paris. As altas expectativas confirmaram-se, o concerto fora um sucesso, Guiomar era uma grande artista. No dia seguinte Felix de Otero, respeitado professor e crítico do jornal O Estado de São Paulo, desafinou o coro dos entendidos: para ele Guiomar não era uma artista acabada. A opinião criou polêmica na imprensa sobre a justa reputação da pianista: artista ou promessa? Debatia-se o estatuto do artista e o merecimento ao título. Na sociologia da arte de BECKER (1982) as pessoas envolvidas na criação de obras de arte e a sociedade em geral são responsáveis por reconhecer os indivíduos dotados com talentos raros e especiais que caracterizam o artista; o exame das obras revelaria a posse daqueles atributos pois elas os expressam e incorporam. Por outro lado SIMIONI (2008) mostrou a importância do gênero biológico na produção e percepção das obras feitas por artistas plásticas mulheres durante a primeira república. Segundo ela, a produção feminina ou ficava restrita a gêneros artísticos “menores” ou era classificada como amadora. Através de críticas musicais, notícias e crônicas publicados em jornais e revistas paulistanos na passagem do século XIX ao XX, examinarei como estes conceitos, artista e amador, eram percebidos e usados para julgar a participação feminina nas atividades musicais. Além de qualificar obras e artistas, tais conceitos também delimitavam fronteiras de atuação (profissional e familiar) e seus espaços (sala de concertos e a casa).

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Artists or amateurs? Women in the São Paulo’s city piano world in the beginning of the first republic

On September 1913 Guiomar Novaes debuted at the Municipal Theater of São Paulo, it was also the first time she performed in the city after winning Paris’s Conservatoire first prize. The high expectations were confirmed, the concert was a success and Guiomar was a great artist.The next day Felix de Otero, a respected professor and critic of the newspaper O Estado de São Paulo, tune out the choir of the connoisseurs: for him Guiomar was not a rounded artist. The opinion generated a heated debate in the press about the fair judgment of the reputation: artist or promise? It was debated the artist’s statute and the its entitlement. In the sociology of art proposed by Becker (1982) people involved in creating works of art and society in general are responsible for recognizing individuals gifted with rare and special talents, which characterize the artist; the owning of those attributes could be revealed by the analyzing the works because they would express and incorporate them. On the other hand SIMIONI (2008) showed the gender’s importance in the production and perception of the works done by female fine artists during the first republic. According to her, the female production either was restricted to “minor” artistic genres or was classified as amateur. Through music critics, news reports and chronicles published in São Paulo newspapers and magazines in from the passage from the 19th to the 20th century, I will examine how these concepts, artist and amateur, were perceived and used to judge female musical participation in São Paulo. In addition to qualifying works and artists, these concepts also delimited boundaries of performance (professional and family) and their spaces (concert hall and home).