Choro vesgo

Choro vesgo: deformações formais na obra de Zé Barbeiro

Cibele Palopoli

O surgimento do Choro remonta à década de 1870. Nascido a partir de uma maneira “abrasileirada” de se interpretar gêneros de dança europeus, tais como a polca, a schottish e a valsa, o Choro herdou de seus antepassados a estrutura tripartite em forma Rondó (ABACA) com seções contrastantes. Durante muitos anos diversos compositores daquele que viria a se tornar o primeiro gênero musical brasileiro urbano adotaram esta estrutura em suas obras. Na virada entre os séculos XX e XXI verificamos transformações que foram diferenciando o Choro tradicional daquele que vem sendo produzido atualmente. Neste contexto, surge a obra de José Augusto Roberto da Silva (n. 1952), violonista e compositor radicado em São Paulo. Zé Barbeiro, como é conhecido no meio musical, adotou o violão de sete cordas, característico do Choro, como o seu instrumento, consolidando-se como um dos mais importantes violonistas do Brasil. Paralelamente à sua carreira de intérprete, passou a compor aos cinquenta anos de idade. Atualmente, após cerca de dezesseis anos de atividade composicional, Zé Barbeiro possui mais de duzentas e vinte obras entre choros, polcas, baiões, maxixes, valsas, sambas, gafieiras, frevos, tanguinhos, xotes, bossa novas, lundus, rumbas e marchas, além de gêneros híbridos, como choro-maxixe, polca-tango, choro-bossa e polca-choro. A presente comunicação tem por objetivo verificar as modificações formais que distanciam da forma Rondó a estrutura de algumas obras do compositor em questão, ocasionadas por variados recursos composicionais, tais como: utilização de métricas assimétricas e mistas; prolongamentos ou rupturas cadenciais e motívicos etc. O referencial teórico apoia-se em títulos direcionados ao estudo de aspectos estruturais da música erudita (BERRY, 1966; CAPLIN, 1998; MATHES, 2007) e do Choro (ALMADA, 2006 e 2012; VALENTE, 2014). Na conclusão, refletimos acerca das mudanças observadas e do enquadramento da obra de Zé Barbeiro ao conceito de Choro contemporâneo.

******

Cross-eyed Choro: formal deformations in the work of Zé Barbeiro

The birth of Choro dates back to the 1870s. It was born from a Brazilianized way to interpret European dance genres such as Polka, Waltz, and Schottish. Choro inherited from its ancestors the tripartite structure in Rondo form (ABACA) with contrasting sections. For many years composers of the one that would become the first urban Brazilian musical genre adopted this structure in their works. At the turn of the twentieth and twenty-first centuries we can verify some changes between the traditional Choro and the one that is been produced today. In this context arises the work of José Augusto Roberto da Silva (b. 1952), who is based in São Paulo. Zé Barbeiro, as he is known in the music scene, adopted the seven strings guitar as his instrument, consolidating himself as one of the most important guitarists of Brazil. He began composing at the age of fifty, and currently, after about sixteen years of compositional activity, has more than 220 works among choros, polkes, baiões, maxixes, waltzes, sambas, gafieiras, frevos, tanguinhos, xotes, bossa novas, lundus, rumbas, and marchs, besides hybrid genres, such as choro-maxixe, polka-tango, choro-bossa, and polka-choro. This paper aims to verify formal modifications that distracts from Rondo form the structure of some works of Zé Barbeiro, caused by various compositional resources, such as: the use of asymmetric and mixed metrics; prolongations or ruptures in motifs and cadenzas etc. The theoretical framework is based on titles directed to the study of structural aspects on Classical Music (BERRY, 1966; CAPLIN, 1998; MATHES, 2007) and on Choro (ALMADA, 2006 and 2012; VALENTE, 2014). In conclusion, I reflect about the observed changes and the framing of Zé Barbeiro’s work into the concept of Contemporary Choro.