Da Casa da Mariquinhas à Casa di Irene:  À escuta da canção internacional, no Brasil (1950-1970)

Heloísa de A. Duarte Valente

Esta comunicação tem, como objetivo principal, abordar três gêneros musicais de origem estrangeira, que se fixaram no Brasil, no período compreendido entre as décadas de 1950- 1970, época em que o disco analógico se fixa como mídia hegemônica, em termos de alta-fidelidade acústica. Tomamos o fado, o bolero e a “canção romântica’ italiana que, a despeito das inegáveis diferenças, apresentam semelhanças, para além da temática, centrada nos conflitos sentimentais e amorosos e exposta nos títulos e nas letras. No que diz respeito aos distanciamentos, destaca-se a capacidade de maior ou menor movência nos gêneros: ainda que assimilado e apropriado pela indústria fonográfica, o fado guarda fortes traços da oralidade que lhe deu origem, sendo constantemente reinventado, incorporando novos textos. A canção concebida para o hit parade – tal é o caso do bolero e da “canção romântica” italiana, ainda que de autoria de cantautores renomados, explora antes aspectos da vida pequeno-burguesa que aspectos metafísicos. Assim, A Casa da Mariquinhas (Alfredo Marceneiro) em muito se distancia da Casa di Irene (Nico Fidenco) e, mais ainda, de La casa (Armando Manzanero). De maneiras distintas, estes repertórios constituem parte expressiva da paisagem sonora no meio citadino e desenharam o universo de escuta de uma significativa parcela de ouvintes de música mediatizada. Tendo em conta  que os formatos e os formas de sensibilidade que a tecnologia analógica orientam as maneiras de ouvir e, por conseguinte, a criação de hábitos de escuta, o texto procura relacionar essas canções com a paisagem sonora da época em que gozaram sucesso (1950-1975), destacando as relações entre mídia, consumo, paisagem sonora, performance  – determinantes do gosto estético no período.

******

From Casa da Mariquinhas till Casa di Irene: Listening the internacional song, in Brazil (1950-1970)

This communication has, as a main objective, to approach three musical genres of foreign origin, that settled in Brazil, in the period concerning 1950-1970, when the analogical record is fixed as the hegemonic media, in terms of high- fidelity. We take the example of the fado, the bolero and the Italian “romantic song” that, despite the undeniable differences, present similarities, headlined by the theme, centered in the sentimental and amorous conflicts, present in the titles and the lyrics. It is worth mentioning the capacity of greater or lesser of movence in these genres: although assimilated and appropriated by the phonographic industry, the fado keeps strong traces of the orality that gave rise to it, being constantly reinvented, when incorporating new texts. The song intended for the hit parade – such as the Bolero and the Italian “romantic song”, although authored by renowned singer-songwriters (cantautores), explores aspects of petty-bourgeois life rather than metaphysical aspects. Thus, A Casa da Mariquinhas (Alfredo Marceneiro) is very distant from Casa di Irene (Nico Fidenco) and, even more so from La casa (Armando Manzanero). In different ways, these repertoires constitute an expressive part of the sound landscape in the city center and they designed the universe of listening of a significant portion of listeners of mediatized music. Bearing in mind that the formats and forms of sensitivity that analogue technology guides in ways of listening and hence the creation of listening habits, the text seeks to relate these songs to the sound landscape of the era in which they were successful (1950 -1975), highlighting the relations between media, consumption, sound landscape, performance – determinants of aesthetic taste in the period.