Em prol de uma classificação musicológica da iconografia musical: da imagem ao contexto

Pablo Sotuyo Blanco

A iconografia musical é a expressão comum para designar um amplo conjunto de fontes visuais relativas à cultura musical, muito utilizado na pesquisa musicológica. No entanto, o alcance desse amplo conjunto ainda é tema de discussão. A identificação dos itens que constituem o referido conjunto passa, inevitavelmente, pela descrição do seu conteúdo visual. O repertório de técnicas descritivas da iconografia em geral, possui um leque que vai da écfrase (e suas categorias tópicas) até à análise iconográfica prevista nas abordagens de Warburg ou Panofsky, nelas incluindo (ou não) os aspectos socioculturais e/ou antropológicos da fonte visual. No entanto, certamente por se tratarem de abordagens totalizantes do repertório de fontes visuais, as tentativas de categorização e classificação da iconografia no âmbito das artes visuais, assim como os estudos sobre os seus efeitos e alcances em outras artes (notadamente na poesia e na prática musical) não só tem se preocupado com os recursos utilizados na construção iconográfica e seus discursos possíveis mas, no caso da sua classificação, tem resultado em propostas imprecisas e excludentes devido a aspectos culturais limitantes (como se observa no caso da Iconclass). No caso específico da iconografia relativa à prática e cultura musicais, além das discussões conceituais em torno de taxonomias e tipologias já realizadas, seja em torno da ressignificação de instrumentos musicais (como no caso das plásticas sonoras de Smetak), da visibilidade (ou não) das referidas fontes (como no caso das marcas d’água), ou do seu caráter tangível (ou intangível, como no caso de fontes visuais digitais), talvez a discussão em torno da Iconografía Musical Chilena de Samuel Claro Valdés et al (1989), recentemente apresentada no III Congresso Latino-americano de Iconografia Musical, realizado na Universidade Autônoma do México (UNAM), seja um caminho a ser percorrido mais profundamente. A distância então observada entre as fontes visuais e a prática e cultura musicais, abriu a porta para a presente proposta. Assim sendo, este trabalho propõe discutir a possibilidade de classificar a iconografia musical não apenas segundo o conteúdo iconográfico musical em si, mas também considerando a distância e o vínculo com as referidas prática e cultura musical, incluindo os diversos referenciais socioculturais e/ou antropológicos possíveis.

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Towards a musicological classification of musical iconography: from image to contexto

Musical iconography is the common expression to designate a wide range of visual sources related to musical culture, much used in musicological research. However, the scope of this broad set is still a matter of discussion. The identification of the items that constitute the set goes inevitably by the description of its visual content. The repertoire of descriptive techniques of iconography in general has a range from the ekphrasis (and its topical categories) to the iconographic analysis envisaged in Warburg or Panofsky’s approaches, including (or not) sociocultural and / or anthropological aspects of the source visual. However, due to their wide-range approach on the repertoire of visual sources, the attempts to categorize and classify iconography in the field of visual arts, as well as the studies on its effects and scope in other arts (notably poetry and musical practice) has not only been concerned with the resources used in iconographic construction and its possible discourses but, in the case of its classification, has resulted in imprecise and excluding proposals due to limiting cultural aspects (as seen in the Iconclass case). In the specific case of iconography related to musical practice and culture, in addition to the conceptual discussions around taxonomies and typologies already carried out, whether around the re-signification of musical instruments (as in the case of Smetak sound plastics), visibility (or not, as in the case of watermarks), or its tangibility (or intangibility, as in the case of digital visual sources), perhaps the discussion around the Chilean Music Iconography by Samuel Claro Valdés et al. (1989), recently presented at the III Latin American Congress of Music Iconography, held at the Autonomous University of Mexico (UNAM), is a path to be followed more deeply. The distance then observed between the visual sources and the musical practice and culture opened the door to the present proposal. Thus, this work proposes to discuss the possibility of classifying musical iconography not only according to the musical iconographic content itself, but also considering the distance and the bond with the aforementioned musical practice and culture, including the various possible sociocultural and / or anthropological references.Ana Guiomar Rêgo SOUZA (Universidade Federal de Goiás). Doutora em História Cultural pela UnB. Mestra em Música pela Universidade Federal de Goiás (UFG). É Professora Associada desta universidade, lecionando na Graduação, no Programa de Pós-graduação em Música,stricto sensu, da UFG e no curso de Especialização em Arte Educação Intermidiáticas da EMAC/UFG. Foi coordenadora do curso de Licenciatura em Música por cinco anos, coordenadora do Curso de Especialização em Ensino da Música e Processos Interdisciplinares em Artes. É atualmente Diretora da EMAC/UFG. Coordena o “Laboratório de Musicologia Braz Wilson Pompeu de Pina Filho”. Integra a Comissão Científica do CARAVELAS – Centro de Pesquisas em História da Música Luso-brasileira/ CESEM/Universidade Nova de Lisboa e o Corpo Editorial da Revista UFG. Atua como orientadora no Programa de Pós-graduação em Música da EMAC/UFG e como coorientadora no Programa de Pós-graduação do Departamento de Música da Universidade de Évora. Preside o Simpósio Internacional de Musicologia, realizado pela EMAC/UFG em parceria com o CARAVELAS (CESEM/UFCS/UNL) e o Festival Internacional de Música da EMAC/UFG. Atua como pesquisadora nas linhas “Música, História, Cultura e Sociedade” e “Identidades, Representações e Processos Interdisciplinares”, tendo organizado livros, publicado capítulos de livros, artigos em revistas científicas e anais. Integra o “Núcleo de Pesquisas e Produção Cênico Musical” da EMAC/UFG, produzindo óperas e musicais resultantes de pesquisas históricas e musicológicas.