Trânsitos, Entrecruzamentos, Hibridações Culturais: Modismos ou premência de um aporte teórico pertinente para se pensar a cultura musical brasileira?

Trânsitos, entrecruzamentos, hibridações culturais constituem processos que não implicam em sínteses ou fusões, mas em dialogia e polifonia, em deslizamentos que levam a negociações, apaziguamentos, conflitos e atritos constantes entre elementos culturais que se encontram e se confrontam de forma diferente em diferentes tempos e lugares (CANCLINI, 2011; BURKE, 2001; MARTIN-BARBERO,1996). Tais circunstâncias, sobremodo importante, não estão implicadas auma visão essencialista de cultura, mas, ao contrário,questionam as essências, aquilo que se confunde com conteúdos fundamentais de origem. Concordamos com os autores mencionados, que, utilizando a expressão hibridação cultural, discutemesses processos tendo em vista não apenas a contemporaneidade que se caracteriza por uma compressão do tempo e espaço que leva a uma acentuação dos mesmos (HARVEY, 2013; HALL (2014), mas também a América Latina, percebida como “local de cruzamentos de elementos distantes e em graus de sentidos variados, onde o autóctone praticamente é inexistente” (VARGAS, p. 24, 2007). No entanto, sabemos que discussões e polêmicas têm surgido no meio acadêmico diante da utilização dessa denominação. Assim, esta mesa temática tem como objetivo provocar reflexões e discussões sobre os processos de hibridação cultural e a adequação desta expressão.Como enfoque teórico em questãoe, como exemplo, reflexões sobre as obras de compositores que têm atuado em três cenários musicais brasileiros,serão abordados: a)o trabalho, interpretação e performance  de instrumentistas brasilienses, tendo como referência a obra “Um chorinho em Cochabamba” de Rogério Caetano e a interpretação da obra “Noites cariocas”, de Jacob do Bandolim pelo mesmo e por Hamilton de Holanda,que possibilitam a identificação da tradição musical brasileira em diálogo com elementos do jazz e de outros pontos da América Latina; b) o arranjo de Aurélio Cavalcanti (1874-1915) da ária Quando me’nvo’,de Giacommo Puccini (1858-1924), da ópera La Bohème, em que, de forma profusa, ficam evidentes o trânsito cultural entre práticas musicais e sociais de diversas procedências, a exemplo do choro, da música dos pianeiros, da música de banda e, sobretudo, da ópera; c) a composição “Fogaréu” de autoria de  Dimerval Felipe da Silva, contrabaixista, arranjador e compositor goiano conhecido como Bororó, constante do CD homônimo de sua autoria.

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Transit, intercrossing, cultural hybridizations: modism or urgency of a relevant theorical contribution to thinking Brazilian culture?

Transit, intercrossing, cultural hybridizations are processes that do not imply synthesis or fusion, but in dialogue and polyphony, in slippage that leads to constant negotiations, appeasement, conflicts and friction between cultural elements that meet and confront each other in different times and places (CANCLINI, 2011; BURKE, 2001; MARTIN-BARBERO, 1996). Such circumstances, which are so important, are not implied in an essentialist view of culture, but, on the contrary, question the essences, what is confused with fundamental contents of origin. We agree with the mentioned authors, who, using the expression cultural hybridization, discuss these processes in view not only of the contemporaneousness that is characterized by a compression of time and space that leads to an accentuation of them (HARVEY, 2013;),  but also the Latin America, perceived as a “place of crossings of distant elements and in varying degrees of meanings, where the autochthon is practically non-existent” (VARGAS, p.24, 2007.) However, we know that discussions and controversies have arisen in the academic context in which use this denomination.Thus, this thematic table aims to provoke reflections and discussions on the processes of cultural hybridization and the adequacy of this expression.With the theoretical focus in question and, as an example, reflections on the works of composers who have performed in three brazilian musical scenarios, will be approached: a) the work, interpretation and performance of brazilian instrumentalists, with reference to the work “A chorinho in Cochabamba” by Rogério Caetano and the interpretation of the music “Noites cariocas” by Jacob do Bandolim by the same one and by Hamilton de Holanda. It makes possible the identification of the brazilian musical tradition in dialogue with elements of the jazz and other points of Latin America; b) the arrangement by Aurélio Cavalcanti (1874-1915) of the aria When me’n vo ‘, by Giacommo Puccini (1858-1924), of the opera La Bohème, in which, profusely, the cultural transit between musical practices becomes evident and social movements of different origins, such as choro, pianeros music, band music and, above all, opera; c) the composition “Fogaréu” by Dimerval Felipe da Silva, double bass player, arranger and composer known as Bororó, included in the CD of the same name.