Formação e identidade na obra operística de um compositor tropical

Antonio Carlos Gomes é um dos mais significativos compositores da América Latina com expressão internacional no século XIX. Nascido na vila de São Carlos, atual Campinas (São Paulo, Brasil), o compositor vivenciou três fases em sua vida. Incialmente recebeu seguro treinamento musical com seu pai, Manoel José Gomes, mestre de capela e regente de orquestra. Nesta fase, viveu e deixou-se influenciar por um ambiente altamente diferenciado em termos de literatura musical, ainda que dentro das limitações de uma pequena vila do interior do Brasil imperial. Na segunda fase, retoma estudos sistemáticos no Conservatório Imperial no Rio de Janeiro, maior centro musical do país, compondo e estreando suas primeiras obras líricas de folego. Por fim, recebe uma bolsa para estudos em Milão. Graduando-se no Conservatório Real, inicia exitosa carreira como operista no concorrido cenário milanês e italiano. Figura expressiva da música em dois continentes, sua vida e obra estimula discussões sobre seu papel no cenário musical do Brasil e das Américas de seu tempo, assim como sua contribuição à evolução da ópera italiana da segunda metade do século XIX. Nessa mesa temática imbricam-se quatro tópicos relevantes e ainda inconclusos: a dualidade identitária de sua vida predominantemente italiana, sua função de ator privilegiado na ilustração do Brasil imperial em fase de afirmação do nacionalismo romântico, sua trajetória inicial no mais icônico centro operístico da Europa e a questão da memória musical entre acervos e práticas arquivísticas.  Em conjunto, são tópicos que requerem ainda maior detalhamento e reflexão por parte da musicologia histórica. Como compositor brasileiro e membro do seleto grupo de artistas convocados a ilustrar o Brasil como nação civilizada a ser demonstrado às potências europeias, e considerando-se, na época, as questões políticas e econômicas que levaram à efervescência do nacionalismo em música, cabe discutir a brasilidade de Carlos Gomes, não só em termos de sua proposta composicional como no efetivo reflexo de sua obra como música nacional. Por fim, relevante sempre, mormente aos compositores não canônicos, devemos ressaltar o papel dos acervos de documentos musicais ligados a Carlos Gomes, não só no aspecto de sua preservação como a análise dos papéis de música produzidos, adquiridos e mantidos no acervo da família Gomes e suas implicações na vida musical de Campinas e na vida do próprio compositor homenageado com esta mesa temática.