Pe. José Maurício Nunes Garcia: recepção póstuma, controvérsias e contradições

Lutero Rodrigues

Julgamos que a comemoração dos 250 anos de nascimento do Pe. José Maurício justifique a reflexão que aqui empreendemos. Somente alguns anos após sua morte, Manoel de Araújo Porto-Alegre publicou alguns textos que lhe davam destaque, exaltando também a supremacia da escola italiana de composição. Com o passar do século XIX, o compositor e sua música estavam quase esquecidos, quando o Visconde de Taunay, escritor e homem público, liderou uma campanha para reverter esse quadro e convencer o Governo a adquirir numerosas obras manuscritas de sua autoria, visando preservá-las numa instituição pública especializada. Dessa campanha, com forte apelo nacionalista, destacaram-se ao menos dois aspectos: deu-se grande ênfase à rivalidade entre Marcos Portugal e o Pe. José Maurício; valorizou-se ao máximo seu suposto vínculo com a escola de composição alemã, sob a influência de correntes de pensamento da época, ressaltando ainda a decadência da escola italiana. Quase ao mesmo tempo, culminava a intensa polêmica sobre a contaminação da música sacra da Igreja Católica por elementos operísticos, sobretudo italianos, dos quais sua obra musical não se eximiu, interferindo no processo mencionado. Em 1930, centenário da morte do compositor, Mário de Andrade admitiu que pouco se conhecia de sua música, mas Luiz Heitor e, principalmente, Cleofe Person de Mattos, evitaram que caísse no esquecimento. Cleofe, em diversas ocasiões, deixou transparecer que ainda acreditava no pensamento de Taunay, na vinculação com a música alemã, embora convivesse com contradições. Após 1950, nossa musicologia ampliou seus estudos e áreas de interesse, aproximando-se também da musicologia portuguesa. Diversos estudos mostraram que a música do Pe. José Maurício resultara da matriz portuguesa e italiana, não da alemã. Doravante, espera-se que o intercâmbio de conhecimentos e novas ferramentas de análise permitam vê-la com outros olhos.

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We judge that the 250 years celebration of José Maurício Nunes Garcia’s birth justifies the reflection that we undertake here. Just a few years after his death, Manoel de Araújo Porto-Alegre published some texts that highlighted him, also exulting the supremacy of the Italian school of composition. With the passage of the 19th Century, the composer and his music were almost forgotten, when Visconde de Taunay, a writer and public man, led a campaign to reverse this and to convince the government to acquire a great number of manuscripts written by him, aiming at preserving them in a specialized public institution. From this campaign, with a strong nationalist appeal, at least two aspects were highlighted: It was emphasized the rivalry between Marcos Portugal and Father José Maurício, his supposed bond with the german school of composition was overvalued, under the influence of currents of thought from that time, highlighting the decay of the Italian school. Almost at the same time, it was culminating the intense polemic about the contamination of the sacred music of the Catholic Church by operatic elements, especially the Italians, from which their musical work wasn’t exempt, interfering with the already mentioned process. In 1930, centenary of the composer’s death, Mário de Andrade admitted that his music was barely known, but Luiz Heitor and, especially, Cleofe Person de Mattos avoided it from falling into oblivion. Cleofe, in many occasions, showed that still believed in Taunay’s thoughts, in the binding with the German music, although she lived with contradictions.

After 1950, our musicology extended its studies and areas of interest, also approaching the Portuguese musicology. Various studies had shown that Father José Maurício’s music are a result of a Portuguese and Italian matrix, not German. Henceforth, it is expected that the exchange of knowledge and new analysis tools allow to see it differently.