Jovem Guarda e MPB: disputas simbólicas na música popular

Marcelo Garson

A década de 60 assistiu à reorganização das relações de poder na música popular brasileira, a partir da emergência de uma nova geração de artistas jovens. De um lado, talhados pela tradição romântica massiva, pelo rock-balada norte americano e pela sonoridade e visual dos Beatles, jovens egressos das classes populares com canções que falavam de namoros, festas e carros constiam a Jovem Guarda. Do outro, a MPB, “música popular brasileira”, uma instituição cultural em que diversas matrizes – como o samba urbano, os ritmos regionais e o jazz – eram relidos a partir de propostas de experimentação e politização de forma e conteúdo, tendo o jovem universitário de classe média como paradigma. Tidos hoje como grupos antagônicos, Jovem Guarda e MPB (Música Popular Brasileira), então disputavam um mesmo mercado massivo, ausente de nichos de consumo bem definidos e também impregnado pela influência do rádio, ainda notável na produção e nas performances televisivas dessa nova geração. A divisão em nichos antagônicos não se fez somente pelo repertório diferenciado ou de questões de fundo político e ideológico, mas trata-se, em larga medida, das consequências de uma “guerra” que se forjou naquela mesma década e teve a televisão como palco privilegiado. Nesse percurso é possível observar estratégias muito semelhantes de conquista por espaço profissional e por visibilidade midiática. Analisando algumas de suas “batalhas” destacadas, buscaremos compreender a dinâmica desse novo cenário musical a partir das disputas e tensões que envolveram vários meios de comunicação – a TV, mas também revistas, jornais, cinema e rádio – e também os próprios artistas. Nesse processo, sublinhamos o caráter construído dessa guerra e como ela instrumentalizou a separação em grupos e acabou por nublar uma série de trânsitos, encontros e demandas que MPB e Jovem Guarda experimentaram.

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Jovem Guarda and MPB: symbolic disputes in Brazilian popular music

With the emergence of a new generation of young artists, the 60´s witnessed the reconfiguration of power relations in Brazilian popular music. On one side, influenced by the massive romantic tradition, the American rock-ballad songs and the Beatles’ sonic and visual experience, newcomers from the working class with songs that dealt with dating, parties and cars. They were called were the Jovem Guarda (Young Guard). On the other side, the MPB  (Brazilian popular music) group, formed by the upper class youth, intended to reassemble several genres – such as urban samba, regional rhythms and jazz – infusing experimentation and politicization of form and content. Nowadays, Jovem Guarda  and MPB are taken as antagonistic groups, but, by that time they were fighting for the same mass market, absent from well defined consumption niches. The division into contrasting niches was not only due to the differentiated repertoire or to questions of political and ideological background, but to a large extent is the consequence of a “war” that was constructed in that same decade and had the television as a privileged stage . In this way it is possible to observe very similar strategies that aim the conquest of professional space and by media visibility. Analyzing some of this outstanding “battles”, we will try to understand the dynamics of this new musical scenario from the disputes and tensions that involved various media – TV, but also magazines, newspapers, film and radio – as well as the artists themselves. In this process, we underline the constructed dimension of this war and how it forged the rigid the separation into groups and ended up masking a series of transits, encounters and demands that MPB and Young Guard experienced.