Música funcional, comunicação e pensamento quântico na estética relativista de H. J. Koellreutter

Marcus S. Wolff

O presente trabalho procura investigar a questão da relatividade dos valores estéticos, tal como colocada por Hans J. Koellreutter (1999), considerando essa discussão como um desdobramento das leituras realizadas pelo autor da obra de Mário de Andrade e do contato com as tradições musicais não-europeias (indianas e japonesas) na década de 1960 e 1970. Pretende-se demonstrar como o maestro e compositor, partindo de textos de Mário de Andrade, iniciou uma discussão, na década de 1940, entre os membros do grupo Música Viva, sobre o modo como as condições sócio-econômicas afetam a sensibilidade estética e os valores dos grupos sociais, relativizando concepções conservatoriais pautadas pela defesa de valores absolutos, tais como beleza e perfeição. Levando adiante essa discussão em momento posterior, Koellreutter agregou a ela novos elementos, oriundos de suas leituras dos cientistas ligados à física quântica, que questionaram a objetividade científica, tal como compreendida anteriormente dentro do paradigma racionalista. Por um lado, transpôs para o campo da arte e da estética musical a reflexão dos físicos a respeito da impossibilidade de se estabelecer uma observação objetiva da realidade dos fenômenos observados, ao afirmar o relativismo dos valores e sua dependência com relação ao homem e à sociedade. Por outro lado, o contato com as tradições musicais da Índia e do Japão, em que a comunicação de significados diversos ao público se manteve, também levou à busca da superação do individualismo do Ocidente moderno. Em seu lugar, propôs uma arte “onijetiva”, na qual o compositor e o intérprete comunicam a “nova imagem do mundo” que substitui tanto o ideal clássico (europeu) de objetividade e seus valores absolutos quanto o extremo subjetivismo das vanguardas do século XX. Utilizando-se de ferramentas desenvolvidas pela musicologia, pela semiótica da música e pelas ciências sociais, a pesquisa em andamento sobre o pensamento estético de Koellreutter procura contextualizar suas concepções e a agenda estética e política que o levou a buscar um diálogo com cientistas ligados ao pensamento quântico e com os mestres das tradições musicais da Índia e do Japão, possibilitando sua compreensão da arte como forma de comunicação que vincula o criador aos intérpretes e ouvintes, de modo a compartilharem ideias e sentimentos despertos pela obra musical que procura representar uma realidade além da razão humana.

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The present paper seeks to investigate the question of the relativity of aesthetic values, as affirmed by Hans J. Koellreutter (1999), considering this discussion as an unfolding of the readings made by him of the work of Mário de Andrade (1977) and of the contact with the non-western musical traditions (Indian and Japanese) in the 1960s and 1970s. It is intended to demonstrate how the composer and maestro, starting from texts by Mário de Andrade, began a discussion in the 1940s among members of the “Grupo Música Viva” about the way in which the socio-economic conditions affect the aesthetic sensibility and the values of the social groups, relativizing conservatorial conceptions guided by the defense of absolute values, such as beauty and perfection. Carrying on this discussion later, Koellreutter added to it new elements from his readings of scientists linked to quantum physics, who questioned scientific objectivity as previously understood within the rationalist paradigm. On the one hand, he transposed to the field of art and musical aesthetics the reflection of physicists about the impossibility of establishing an objective observation of the reality of observed phenomena, affirming the relativism of values and their dependence on man and society. On the other hand, the contact with the musical traditions of India and Japan, in which the communication of diverse meanings to the public has been maintained, also led to the search of overcoming the individualism of the modern West. Instead, he proposed an “onijectiv” art in which the composer and the interpreter communicate the “new image of the world” that replaces both the classical (European) ideal of objectivity and its absolute values and the extreme subjectivism of the Western avant-garde of the twentieth century. Using tools developed by musicology, music semiotics and the social sciences,  the ongoing research on Koellreutter’s aesthetic thinking seeks to contextualize his musical conceptions and the aesthetic and political agenda that led him to begin a dialogue with scientists linked to the Quantum movement and with the masters of the musical traditions of India and Japan, enabling his understanding of art as a form of communication that links the creator to the interpreters and listeners, in order to share ideas and feelings awakened by a musical work that seeks to represent a reality beyond human reason.