Música popular brasileira dos anos 1950 e hibridismos: características musicais e sonoras do sambolero

Raphael Fernandes Lopes Farias

É fato conhecido que as décadas de 1940-50 na música brasileira foram marcadas pela influência da música “hispânica” – entenda-se: latino-americana-, sobretudo pelo bolero. Este gênero se desdobrou em uma versão híbrida, o subgênero denominado “sambolero”, resultado da fusão do bolero com o samba-canção (ARAÚJO, 1999; KNIGTHS, 2003). Este subgênero surge anos de 1940, tendo seu auge nos anos 1950, coincidindo com a chamada “época de ouro” do rádio brasileiro, período em que as canções “aboleradas” gozaram de imenso sucesso. (MATOS, 2013). Levando em conta a escassez e até a inexistência de partituras que possam fornecer dados mais precisos para uma análise musical, o presente estudo pretende analisar as características musicais e sonoras peculiares ao sambolero, a partir da audição de gravações originais. Ademais, busca-se encontrar os elementos constantes e elementos morfológicos particulares, como a formação dos conjuntos, arranjos, instrumentação, células rítmicas etc a partir da teorias das tópicas, aplicada à música nacional e daquelas que participam da música “hispânica” (PIEDADE, 2012). Para tanto, o ponto de partida se encontra no conceito de movência (ZUMTHOR, 1997), aplicado ao gênero canção. A análise tem como objetivo contribuir para um conhecimento acerca de um período da música popular brasileira, esteticamente renegado pela crítica musical e pelos protagonistas de movimentos musicais que se seguiram, condenando-o mais precisamente pelo seu “excessivo estrangeirismo” (MARIZ, 1959) ou, ainda, classificando-o “decadente” (CAMPOS 1974 apud MATOS, 2013). O que se questiona ainda é que ocorre a presença dos mesmos profissionais da música em todos esses momentos: arranjadores, cantores, instrumentistas transitaram entre o samba, o bolero, o sambolero, a bossa nova, recebendo juízo estético e pessoal em virtude da corrente à qual se filiaram. Questiona-se também, dentre outros aspectos, a desconstrução de rompimento estético ou novidade, apregoada principalmente pelos entusiastas da bossa nova (MERHY, 2012).

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Brazilian popular music of the 1950s and hybrids: musical and sound characteristics of sambolero

It is well known that the decades of 1940-50 in Brazilian music were marked by the influence of “Hispanic” music – be understood: latin-america – especially for the bolero. This genre unfolded in a hybrid version, the subgenre called “sambolero”, result of the fusion of the bolero with the samba-canção (ARAÚJO, 1999; KNIGTHS, 2003). This subgenre dates back to the 1940s, wich peaked in the 1950s, coinciding with the so-called “golden era” of Brazilian radio, a period in which similar to bolero songs enjoyed immense success. (MATOS, 2013). Taking into account the scarcity and lack of scores that can provide more accurate data for a musical analysis, the present study intends to analyze the musical and sound characteristics peculiar to the sambolero, from the hearing of original recordings. Additionally, it is sought to find the constant elements and particular morphological elements, such as the formation of sets, arrangements, instrumentation, rhythmic cells etc. from the theories of topic, applied to national music and also “hispanic” music (PIEDADE, 2012). For this, the starting point lies in the concept of movence (ZUMTHOR, 1997), applied to the song genre.  The analysis aims to contribute to a knowledge about a period of popular Brazilian music, aesthetically renegade by the music critics and the protagonists of musical movements that followed, condemning it more precisely for its “excessive foreignness” (MARIZ, 1959) or , Still classifying it as “decadent” (CAMPOS 1974 apud MATOS, 2013). It is also questioned the presence of the same music professionals in all these moments: arrangers, singers, instrumentalists passed between samba, bolero, sambolero, bossa nova, receiving aesthetic and personal judgment by virtue of the current to which they were affiliated. Among other things, the deconstruction of aesthetic breakdown or novelty, mainly touted by bossa nova enthusiasts (MERHY, 2012), is questioned.