Tópicas musicais ressignificadas na Missa de Réquiem de Marcos Portugal

Ágata Yozhiyoka Almeida

A participação da missa de réquiem, enquanto expressão de luto, deve ser considerada como um dos aparatos simbólicos da encenação fúnebre do Poder Real. A música, nestas cerimônias fúnebres reais no decorrer dos séculos XVIII e XIX, era estimada como uma unidade persuasiva da liturgia, uma vez que suscitava sentimentos de temor e esperança aos seus ouvintes (Lafage, 2012). Com o intuito de observar quais seriam as relações simbólicas, comunicativas e expressivas existentes entre a Missa de Réquiem de Marcos Portugal e a estética da morte, empreendemos um estudo sobre música, religião e morte através das recorrências tópicas musicais. Ao entender as tópicas musicais como “estilos e gêneros musicais retirados de seu contexto apropriado e utilizados em outro” (Mirka, 2014, p.2), consideramo-las como um importante elemento para a interpretação da comunicabilidade e expressividade musical da música setecentista e oitocentista (Mirka, 2008; Allanbrook, 1983, 2014).

Pormenorizar este réquiem, através de uma perspectiva que visa acompanhar seu discurso musical expressivo, é não somente intentar uma busca por elementos musicais que definem essa expressividade, como, por exemplo, uma busca tão somente pelas tópicas musicais. Assim, levando-se em consideração que a presença de tópicas que transmitem uma significação funérea encontra em uma música fúnebre, como as missas de réquiem, um ambiente propício para sua aparição, este trabalho tem como objetivo apresentar elementos desta obra que se revelam em “desacordo”, que transgridem as expectativas de seus ouvintes. Ou seja, pretende-se observar como os elementos descaracterizadores das tópicas tempesta, ombra (McClelland, 2012, 2014) e marcha fúnebre (Monelle, 2006) desestabilizam os significados expressivos de certas seções da Missa de Réquiem de Marcos Portugal, evidenciando como cerne dessas ressignificações expressivas os processos de tropificação (Hatten, 1994, 2004).

******

Musical topics resignified in Marcos Portugal Requiem Mass

The participation of the Requiem Mass as an expression of grief should be considered as one of the symbolic apparatuses of the Royal Power funeral performance. Music, in these royal funeral ceremonies during the eighteenth and nineteenth centuries, was expected as a persuasive unit of liturgy, once it evoked feelings of awe and hope in its listeners (Lafage, 2012). In order to observe the existing symbolic, communicative and expressive relations between the Requiem Mass of Marcos Portugal and the aesthetic of death, we have undertaken a study about music, religion and death through musical topics recurrences.  By understanding musical topics as “musical styles and genres taken out of their proper context and used in another one” (Mirka, 2014, p.2), we consider them as an important element to understand musical communicability and expressiveness (Mirka, 2008; Allanbrook, 1983, 2014).

Itemize this Requiem, through a view that aims to follows its expressive musical discourse, is not only to engage in a search for musical elements that define this expressivity, as just a search for musical topics, for instance. Thus, taking into account that the presence of topics that convey a funeral meaning finds in a funeral music, such as Requiem Masses, an environment conductive to its appearing, this study seeks to present elements of this work that are revealed in “disagreement”, that transgress the expectations of its listeners. That is, it is intended to observe how the decharacterized elements of tempesta, ombra (McClelland, 2012, 2014) and funeral march (Monelle, 2006) topics destabilize the expressive meanings of certain sections of Marcos Portugal Requiem Mass, evidencing as the core of these expressive resignifications the tropification processes (Hatten, 1994, 2004).